O Empresário | companhia brasileira de teatro

O Empresário

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“Nenhum enredo de ópera pode ser sensato,
pois as pessoas não cantam quando se sentem sensatas.”  
W.H. Auden

2004

Uma “Radiografia” 

Olhar para a ópera buscando vê-la por dentro. Evidenciar aquilo que não se vê num espetáculo. Mostrar os mecanismos de funcionamento de uma obra no palco, obra de teatro e de música. Revelar os processos artísticos que conduzem à cena. Abordar comportamentos e inquietações de artistas de ópera. Ouvir o som do piano. Ver, materializada, a voz do cantor. Pensar o que pode ser a ópera hoje, para nós. Estas são algumas das motivações que norteiam este trabalho.

A escolha de “O Empresário”, de Mozart, indica o caminho que pretendemos percorrer. É uma obra metalingüística. Os personagens são de ópera, o tema é a ópera e o que se questiona e se busca entender são justamente as circunstâncias históricas, sociais e culturais dessa forma de arte.

A nossa versão, livremente adaptada, reforça a obra dentro da obra. Trata-se de uma audição para a ópera “O Empresário”, de Mozart. Nesta audição, duas cantoras fazem teste para ingressar no elenco, um cantor já está contratado e um outro cantor é o próprio empresário. O ambiente é o de um teatro e as situações são típicas de um processo de seleção para a montagem de uma ópera. Conduzindo um enredo não linear, os atores-cantores fazem viver em cena um repertório que, além das duas árias, do trio e do quarteto que formam o conteúdo do original de Mozart, passa por mais duas árias de “A Flauta Mágica”, uma de “O Rapto do Serralho”, além de canções de Kurt Weill e Anton Webern.

Marcio Abreu 

Rio, fevereiro de 2004.

“O amor pela ópera é estranho.
Causa paixões absorventes.
Vistas a frio, elas podem mostrar-se
muito cômicas, caricaturais…
Mas a intensidade das emoções que a ópera sabe
produzir é uma experiência insubstituível…”  
Jorge Coli

 

Mozart – O Empresário e a meta linguagem na ópera

As óperas de Mozart apresentam uma tal veracidade psicológica de seus personagens, que muitas delas nunca saíram de cartaz desde sua estréia: As Bodas de Fígaro, Don Giovanni, A Flauta Mágica, entre outras, contêm uma tal “verdade dramático-musical” que as tornam um verdadeiro símbolo da persistência do passado no repertório do presente. E ninguém mais apropriado do que Mozart para fazer um retrato fiel e pertinente do meio operístico.

Em 1786 juntos, Mozart e Salieri, animam uma festa de um nobre em Viena que havia encomendado obras que falassem dos bastidores nem sempre tranqüilos do meio operístico. Salieri escreve Prima la Musica e  Dopo le Parole. E na mesma noitada é apresentado Der Schauspieldirektor ( O Empresário), singspiel buffo que solicitava a presença de quatro cantores e diversos atores numa intriga envolvendo a expressiva cantora Madame Herz (Coração) e a jovial e espevitada Mademoiselle  Silberklang (Som de Prata). O texto original de Gottliebe Sthephanie envelheceu muito mais do que a divertida música de Mozart.

Partindo da idéia original, por que não trazer a ação para os dias de hoje, numa audição de ópera típica de nossos tempos, com rivalidades parecidas com as do século XVII? Para mostrar a “atemporalidade” da proposta abrimos o espetáculo com uma das mais lindas canções de Kurt Weill, Nanas Lied (1939), uma tocante narrativa de uma mulher que é levada a se prostituir, e que se baseia numa linda poesia de Bertolt Brecht, e concluímos com uma enigmática Canção de Anton Webern (1934), de seu período final, que se utiliza como texto de uma das visões panteístas de Hildegard Jone. Isso tudo não sem antes passarmos pelo universo do Singspiel Mozartiano através de momentos de A Flauta Mágica e de O Rapto do Serralho. Neste contexto moderno, atual e plural, a música de Mozart se presta admiravelmente a este retrato cruel, agressivo, e tão pouco digno, mas ao mesmo tempo divertido, que caracteriza o entorno da vida musical.

O Empresário de Mozart tem sido montado nas mais diversas adaptações no que se refere à parte falada. Sua música goza de uma reputação que a coloca, apesar de sua brevidade, entre as melhores de seu autor. Atualizá-la, colocando-a lado a lado com obras capitais do século XX, aproveitando as características especiais deste espaço e de recursos de multimídia, é um desafio que nos convida à reflexão sobre o genial legado lírico Mozartiano.

 Osvaldo Colarusso

Curitiba, fevereiro de 2004