Por que não vivemos? | companhia brasileira de teatro

Por que não vivemos?

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Por que Tchekhov?

Desde 2009 temos o projeto de montar uma peça a partir desse jovem e inacabado texto.

Tchekhov sempre foi para mim, desde muito cedo, uma fonte de aprendizado, de expansão da linguagem, de refinamento das sensibilidades e de conexão com os movimentos do tempo.

Diversas circunstâncias fizeram com que hoje, dez anos depois, estejamos aqui colocando a peça de pé. E nos parece bastante apropriada em contato com os dias que vivemos. Em praticamente toda a sua obra, esse jovem autor – foi sempre jovem, já que morreu aos 44 anos – abordou um mundo em vias de desaparecimento e um porvir ainda incerto. Escreveu pessoas. Escreveu convivências. Estados de espírito, permanências, tentativas de fuga, silêncios. Escreveu fracassos. Belezas mínimas e escondidas. Escreveu o pequeno de cada um, o homem pequeno, aquele que não está no centro, o desvio, as paisagens sonhadas. Olhou para o agora com extrema agudeza e generosidade. E ainda olha. Seu olhar crítico se renova a cada momento da história, se ressignifica à luz dos acontecimentos e no calor da hora .

Tchekhov é sempre uma espécie de lugar para onde retornar, onde podemos nutrir nossa alma, reavivar nosso espírito, tonificar nossos músculos, reaprender a ouvir. De tempos em tempos, voltar a ele tem sido motivo para continuar. A grande poesia do mundo. Essa, que nos lembra que ainda estamos aqui.

Nossa peça é atravessada pelas vibrações de um grupo de artistas e vozes que fazem dessa experiência um momento potente de encontros e de convivências. Trabalhar horas a fio com essas mulheres e esses homens, cultivando o ofício, construindo passo a passo, duvidando, fazendo perguntas, alimentando a coragem e gosto pelo que ainda não sabemos, tem sido motivo de felicidade em dias tão duros como os de hoje. Agradeço infinitamente a cada uma, a cada um.

Tchekhov foi um trabalhador, assim como nós, artistas brasileiros. Recusou durante toda a sua vida a mentira e a violência, preferindo sempre o amor e a liberdade. Lutou, se valendo das palavras e do próprio corpo, por um mundo melhor.

Marcio Abreu

Rio, 26 de junho de 2019

 

 

SEM TÍTULO 

Na verdade não existe nenhuma obra de Tchekhov intitulada “Platonov”. Tchekhov não havia ainda dado um título a esta peça quando a escreveu no inverno de 1878, com apenas 18 anos. 

Em 1920 um manuscrito foi encontrado nos arquivos do Estado no cofre de um banco em Moscou. Eram onze cadernos manuscritos, sendo que no primeiro faltavam duas páginas (do ato I) e a capa. O texto tinha cortes e anotações nitidamente feitos em três épocas diferentes, e possuía o dobro da sua duração atual. Esta peça, portanto, sempre foi um esboço, nunca tendo sido finalizada pelo autor. 

Após receber críticas de seu irmão Alexandre e de ter sido recusada pela atriz M. N. Ermolova, Tchekhov engavetou esta peça, e ela ficou ali esquecida.

Em uma carta a seu irmão Alexandre, datada de 14 de outubro de 1878, encontramos referência a um texto chamado “bezotsovchtchina”, neologismo quase intraduzível, que significa aproximadamente a idéia de: “A ausência de Pai; Sem Pai; Ser sem Pai”. Este podendo ser o seu título original, mas não há certezas.

Esta primeira peça de Tchekhov é considerada uma obra inaugural, uma obra precursora, obra reveladora de um teatro por vir e de mudanças sociais que ela já apontava como necessárias. Como um estado pré-revolucionário.

Muitas vezes intitulada pelo nome do personagem central “Platonov”, esta peça teve sua primeira montagem no Ocidente em Paris, em 1956, encenada por Jean Vilar. Depois disso foi encenada por inúmeros diretores em incontáveis países, recebendo vários títulos diferentes. No Brasil teve apenas uma encenação em 1980, realizada por Maria Clara Machado e seus alunos.

A companhia brasileira de teatro, apresenta a adaptação deste texto fundamental da obra de Tchekhov com o título “Por que não vivemos?”. Esta adaptação foi realizada a partir da tradução do original russo, feita por Pedro Augusto Pinto, e retrabalhada a partir das versões francesas de André Markowicz e Françoise Morvan, de Elsa Triolet e de Pol Quentin.

Giovana Soar

Rio, junho de 2019